O Soldado

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O Soldado

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Ah, muita gente vai se lembrar deles, aqueles bonequinhos de rosto redondo, desenhados com o sorriso tão caracteristico, eram o sonho da molecada … índios, cowboys, soldados e pioneiros do velho oeste faziam parte da coleção, havia bombeiros e policiais, mas estes ninguém queria.

Eu, não me lembro a razão, se era aniversário, natal ou dia das crianças, mas ganhei um soldado, era um boneco azul e seu cavalo que na caixa mostrava o maior tesouro da época, um cinturão com uma pistola. Abri a caixa como meninos apressados abrem embrulhos de presente, quase mordendo e o cartão, tão bem escrito com letrinhas miúdas foi parar em qualquer lugar …

– Leu o cartão menino?

– Li

– Leu nada, menino mal educado, parece um bicho.

Nada importava, em breve poderia enfrentar os índios do vizinho com minha pistola, afinal, sem boneco, só sobrava a opção de ser o cozinheiro da tribo, que segurava um colherão de madeira e um humilhante balde.

– Deixa eu ter um arco e flexa?

– Não, você é o cozinheiro e pronto. Não tem boneco, tá pegando o boi.

Eles que me aguardassem, depois daquele povaréu ir embora, eu iria me vingar de meses de humilhações, agora eu tinha um soldado azul da cavalaria

– Menino, vai pegar um copo para sua Tia

– Ah não Mãe, tô abrindo meu soldado…

– Deixa isso aí e vai agora, sua tia tem que tomar o comprimido e não tem copo limpo aqui. Pega um lá na cozinha.

Que saco, a Tia gorda vivia tomando comprimido, só via ela de vez em quando, mas sempre estava com aquelas pílulas, brancas e amarelas, sempre suando, sempre pedindo água pra tomar comprimidos. Muito tempo depois soube que tinha morrido, morava sozinha e os vizinhos começaram a sentir o fedor, encontraram ela no quarto, tinha tomado todos os comprimidos de dormir.

– Taí o copo

– Obrigado viu, vai abrir seu presente.

E quem disse que a minha caixa estava no lugar onde deixei … procuro pela casa inteira e vislumbro minha preciosidade na mão de meu priminho de 1 ano e meio.

– Mãe, o Rodriguinho pegou meu soldado

– Deixa ele brincar menino, não vai estragar nada.

Puxa vida, primeiro a Tia depressiva hipocondríaca, agora o pestinha do Rodriguinho que tem fama de engolir tudo, comeu até um tatuzinho bolinha no jardim da casa dele.

– Mãe, ele vai engolir as peças do meu soldado

– Então vigia pra ele não comer porcaria, sua tia tá jogando buraco

Outra Tia, essa viciada em baralho, toda festa ficava amolando os parentes para jogar buraco, só ia embora tarde da noite, era preciso que minha mãe vestisse a camisola pra ela desconfiar e ir embora

– É a última mão

– Tem problema não, tô sem sono

Enquanto a molecada disputava os canapés e pedaços de salsicha wilson que minha mãe comprava, picava e jogava no vinagre para os homens comerem enquanto tomavam as garrafas de brahma, eu ficava ali, estático, torcendo para o molecote esquecer a caixa e arrumar outro brinquedo.

– Menino, pega uma lata de cerveja para sua Tia na geladeira

– Ah não mãe, agora vai você

– Anda Menino, sua tia tá com calor.

Minha Tia gostava de uma cervejinha, fumava 2 carteiras de cigarro por dia e jogava buraco todas as noites, largou o marido inválido na cama depois de um derrame e foi embora com um Chileno que conheceu em uma excursão para Bariloche. Nunca mais vimos.

– Mãe o Rodriguinho abriu meu Presente

Só deu pra ver o menino colocando a arminha na boca

– Mãe, o rodriguinho tá comendo as peças

– Valha-me Nossa Senhora, que menino pastel.

Logo eu, o maior interessado, acusado de desleixo, era demais.

– Não comeu nada não menino, tá tudo aqui.

– Tá não mãe, falta a arminha

– Que arminha menino?

– Olha na caixa mãe, tem um revólver

– Procura aí, deve ter caído no chão

– Caiu não, ele comeu.

Buscas foram feitas, mas não adiantou, meu soldado estava nú, sem arminha no cinturão, era o cúmulo da humilhação.

– Fica triste não, a tia te dá outro.

– Quando ele fizer cocô, você me liga?

– Ligo sim, vai sair na fralda.

No outro dia cedo, Pica-Pau, o dono da tribo indígena tocou cedo a campainha

– Ganhou o soldado?

– Não, ganhei só roupa.

– Vamos brincar então?

– Posso ficar com o arco e flexa?

– Não ué, você é o cozinheiro, não tem boneco.

Crônica escrita em 2007 em Cachoeira Escura – Belo Oriente – MG

Postado ao som de:

Conhecendo André Henrique

Mineiro, torcedor do América FC, blogueiro desde 2004, técnico em informática, designer e desenvolvedor WEB, desenvolvedor WordPress, Microsoft Certified Professional, Cronista, escritor e admirador de Friedrich Nietzsche.

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By | 2017-12-10T00:06:34+00:00 5 de dezembro de 2017 às 23:08 hs|crônicas|0 Comentários