Manhã de Sábado

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Manhã de Sábado

– Papai, quero uma coxinha

– De jeito nenhum, você vai almoçar daqui a pouco e sua mãe pediu para não te dar porcarias.

Não adiantava, os pedidos da mãe nunca eram atendidos, afinal todo sábado lá pelas 11 da manhã era sagrado, Alcides dava uma desculpa e o compromisso na rua tinha sempre uma razão, tomar uma cervejinha no boteco da esquina, se é que podia chamar aquela portinhola com uma geladeira Prosdócimo dos anos 60 e uma estufa suja de boteco, aquilo ali era um mafuá de quinta categoria, mas que por motivos que fogem a compreensão humana era ali que ficava reunida a turma da pelada, os jogadores de baralho e gente como Alcides, que gostava de simplesmente ficar ali jogando conversa fora.

No arraial, um distrito de lugar nenhum se pregava a trilogia de cidade pequena, ou seja, falar de futebol, de política e da vida dos outros e enquanto garrafas eram consumidas junto com churrasquinho de carne de segunda amaciada com Coca-Cola, a meninada movida a balas e salgadinhos de milho que o dono da birosca  estrategicamente colocava bem ao alcance da molecada, se divertia com uma bola de meia na rua de terra batida que o Prefeito prometera asfaltar no primeiro mandato

– Feliciano é uma traíra, não se elege nem para vereador mais, é uma vergonha isso aqui

As críticas tinham razão de ser, em dois mandatos, o Prefeito não tinha cumprido quase nada que prometera mas as filhas estavam na melhor faculdade de medicina da capital e a mulher desfilava siliconada pelas festas da sociedade local

– Papai, me dá uma coxinha

Alcides tinha acreditado que o caçula tinha esquecido do salgado, afinal era uma questão sanitária negar o pedido, aqueles salgados eram sistematicamente motivo de reclamações de diarreias e outros transtornos digestivos dos corajosos que depois de duas ou três doses de aguardente resolviam desafiar o bom senso e arriscar-se em um terreno sombrio

– Alcides, as Galinhas já reencarnaram e essas coxinhas ainda estão aí

Apesar da maledicência, o quesito higiene não era o forte do dono do lugar, pois o velho bebia mais do que os clientes e a mulher, que as más línguas locais diziam que não gostava de tomar banho era quem preparava os petiscos suspeitos em um fogão imundo no fundo do cômodo junto a caixas de cerveja. A panela usada para o preparo continha uma substância preta viscosa que em algum momento da história da humanidade poderia ter sido óleo de soja.

Certa época cismaram em vender pizzas pelo telefone, arrumaram um velho celular e colocaram um cartaz escrito a mão “Fazemos pitssas e entregamo na casa do fregueis”. Pelo que consta só tiveram um cliente que corajosamente em um domingo a tarde encomendou uma de tamanho família de queijo e frango

– Capricha pra mim no frango hein

Dizem que quando a encomenda chegou embrulhada em papel de açougue para espanto do cliente havia alguns pedaços de queijo minas bem grandes além de duas asas e um pé de galinha rodeado de tomates e rodelas de cebola como recheio.

– Menino, esquece essa coxinha, pega lá um refrigerante e um pacote de pururuca

Pouco a pouco os homens iam tomando rumo, o assunto acabando e o álcool subindo a cabeça, além disso Alcides sabia que a Mulher fatalmente repetiria a mesma ladainha de todo sábado:

– Encheu a barriga do menino de porcaria né Alcides, agora ele não almoça.

A lembrança e a previsão do futuro fizeram Alcides verter em um gole só o último copo de Cerveja, pagou a bebida, a despesa do garoto e gesticulou para os amigos

– Vamos embora menino, o almoço deve estar pronto.

O Caçula deu uma última olhada para a quitanda como quem procura mais alguma coisa para pedir mas foi puxado pela mão do Pai e pouco depois sumiram atrás da poeirada levantada por um automóvel que passava

Crônica escrita em 2009 – Ipatinga – MG

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Conhecendo André Henrique

Mineiro, torcedor do América FC, blogueiro desde 2004, técnico em informática, designer e desenvolvedor WEB, desenvolvedor WordPress, Microsoft Certified Professional, Cronista, escritor e admirador de Friedrich Nietzsche.

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By | 2017-12-10T00:08:31+00:00 6 de dezembro de 2017 às 00:03 hs|crônicas|0 Comentários