A crônica do absurdo

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A crônica do absurdo

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Quem poderia imaginar que uma criança fosse ao mesmo tempo tão forte e ao mesmo tempo perdida em devaneios próprios da idade, tenra idade dos jogos no campinho de terra do bairro, das buscas incessantes por um não sei o que de liberdade, liberdade essa limitada por um bairro extremamente grande, cercado de matas, no alvorecer da Capital Mineira, mas estes limites estavam prestes a serem quebrados.

Ele queria o mundo, e a geografia dos livros lhe dava a impressão de que o mundo era muito diferente do que ele via ali, praias, estradas, outras capitais, o que era distante na verdade eram apenas escalas em mapas de um atlas escolar, e aquilo necessariamente não era um empecilho, mesmo com a pouca idade não via no mundo a maldade humana, somente objetivos reais e totalmente prováveis desenhados em um mapa.

Muniu-se de coragem e de uma mochila militar, sua sanha tinha um objetivo, queria provar aos amigos que podia e estes mesmos amigos sabiam se tratar de um ser diferenciado, capaz de coisas inimagináveis, afinal, ele estudava fardado, tinha no CMBH a sua força motriz, era aluno de um dos melhores colégios do País, invejado pelos colegas, e assim, na concepção dos mesmos, era capaz de tudo, mesmo aos 13 anos de idade, e se dizia que faria, acreditavam nisso religiosamente.

E assim foi feito, em uma manhã qualquer de um ano tão distante, saiu equipado para a jornada, mas não foi sozinho, tinha um parceiro de loucuras, antigo e tão preparado como ele, entretanto o companheiro de jornada estava curioso, não sabia o destino, ao mostrar no mapa uma cidade a quase 2000 km riu e perguntou por onde começar, era tão improvável como o primeiro, sabia que tudo já havia sido estudado a exaustão, confiava cegamente no planejamento, era a força enquanto o outro era a inteligência, uma dupla perfeita.

Seguiram em direção a liberdade e ela tinha nome, uma Rodovia em direção ao Sul do País, e durante 19 dias batalharam carona, caminharam muito, dormiram em postos de combustível por este País, se viravam como poucos, eram admirados por onde passavam, duas crianças corajosas que naquela idade deveriam estar na barra da saia da mãe se aventuravam por um País de dimensões continentais a centenas de quilômetros de casa.

Sem tecnologia, sem internet, sem celulares, eram só os dois e a estrada, e nas noites escuras batia uma saudade do conforto do lar, mas o alvorecer sempre renovava a coragem e a vontade de seguir em frente, e assim era feito, pois não havia em hipótese nenhuma a opção de retroceder, não para eles, iriam cumprir o objetivo de qualquer modo.

Um dia chegaram a casa dos amigos incrédulos que pareciam estar vendo dois fantasmas à porta em uma cidade no Rio Grande do Sul, tinham viajado de férias antes e mesmo acreditando nas promessas de uma visita, era demasiadamente longe para se levar a sério tamanha loucura. Os adultos em polvorosa não sabiam se chamavam os vizinhos para ver tamanha sandice ou se sentavam e mais uma vez tentavam acreditar naquilo que parecia tão inacreditável, como poderia ser possível duas crianças atravessarem o país sozinhas? E os dois impassíveis, não sabiam o motivo de tanto alarde, era perfeitamente normal na visão deles, nada extraordinário, cansativo talvez, mas nada que fosse motivo de tamanho burburinho.

Depois de 29 dias retornaram a Belo Horizonte e o que era admiração passou a ser algo sobrenatural, eram vistos como personagens das fábulas, figuras mitológicas para os amigos e passatempo para os adultos que de certa forma tinham neles um exemplo de orgulho ferido, de não ter feito algo tão contundente na vida que pudessem um dia estar descrevendo em uma crônica ou contando aos filhos, mas eles fizeram e mais de uma vez.

A vida dos dois tomou rumos diferentes, um seguiu as fileiras militares e o outro decidiu abrir mão em favor do esporte, mas eles sim, sempre terão naquelas andanças razão para se orgulhar de terem sido livres na concepção plena da palavra.

Para meu amigo e parceiro de viagens Capitão PQD Carlos F. Buchemi
Crônica escrita em 2016 – Ipatinga – MG

Postado ao som de:

Conhecendo André Henrique

Mineiro, torcedor do América FC, blogueiro desde 2004, técnico em informática, designer e desenvolvedor WEB, desenvolvedor WordPress, Microsoft Certified Professional, Cronista, escritor e admirador de Friedrich Nietzsche.

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By | 2017-12-10T00:16:36+00:00 6 de dezembro de 2017 às 00:23 hs|crônicas|0 Comentários